Mãe, quando eu for grande quero ser cavalo
O Coronel Bijuca negociava uma tropa em Rosário, quando chegaram os avisos de que estava de cria nova nas casas.
A parteira, Dona Fidalga, tapou os ouvidos quando o fedelho deu grito de vida acesa. Chamou-se Tijano e galopou os anos sem apelido.
Ao Coronel agradava a ideia de ter um filho macho, mas logo percebeu que havia exagerado na encomenda.
Para piá, só o campo apetecia. Estar em casa era uma destemperança.
Digamos que seu olhar tropeçava nas paredes e seus braços, nas esquadrias.
-Mãe, quando eu for grande quero ser cavalo – disse um dia o infante.
O que se sabe de boca santa é que o herdeiro da fazenda do Salso era um desafeiçoado. Cultivava um jeito espantadiço e tinha repelência a qualquer gesto de afago.
O velho Venâncio, que tivera capatazia na fazenda, contava que o desassossegado fizera um bucal para si próprio.
Quando o Anjo Caído tomava conta, o rapazote se palanqueava abuçalado.
Já que ninguém confirma ou desmente, é de bom alvitre seguir em frente.
- Me leva na casa da comadre Eudócia para entregar esse prato de bolinho de arroz – disse a mãe.
Foi só chegar e chegar e deparar, tal qual fosse um aturdimento, o vulto de Rosália.
Era a moça da casa. Tinha pele de pêssego maduro.
A boca, pitanga explodindo entre os ramos. A cachoeira dos cabelos em queda sobre os ombros. Boniteza de parar rodeio e virar carreta.
O gadelhudo se mandou campo afora, atravessando banhado, com riscos de mordida de cobra e guascaços de lagarto.
De noite, na intimidade dos aposentos, o Coronel apaziguou a mulher dizendo que todo bagual encontra seu ginete. Todo leão tem seu dia de gato angorá.
No lombo dos meses chagaram as festas de fim de ano.
Como era de costume, um ano sim e outro também, o Coronel Bijuca recebia o vizindário.
O som dos violões se enredava no aroma do churrasco que pingava nas brasas.
Lamparinas acesas nas janelas, charretes, sobremesas, frutas de todos os pomares, criançada redemoinhando.
“Com magias de meia-noite e com luxos de meio-dia”, xale preso na cintura fina, brincos doirados, jasmim no cabelo e blusa prendendo, por um fio, dois pássaros tontos por liberdade, assim era Rosália.
Em movimentos de dança, com as artimanhas e simulações que só mulheres sabem ter, a moça com lábios úmidos beijou o rosto do Trajano. Marca de ferro em brasa teria ardido menos.
Em desatino, o sôfrego rapazote correu lombada abaixo até mergulhar a cabaça na cacimba.
E por lá foi se ficando em sua postura desamparada.
Entre sabores e cantorias, as horas dançam soltas.
Movendo-se como sombra de nuvem, Rosália se liberta do burburinho das copas e coplas e, guiada pela voz do sangue e ousadias do desejo, vai ao encontro do arisco enamorado.
Os sortilégios da noite já os predestinaram. Ela montará seu corpo em chamas. Estenderá as rédeas de seus braços. Lanhará seu lombo e, com a roseta dos dentes, deixará domado os sinais do combate em seu peito.
Irá segurá-lo pelas crinas, até que exausto, manso, estará domado pelo amor, marcado para sempre pela paixão.
Naquela noite, somente o Mutuca, o cachorro do Coronel Bijuca, tomou conhecimento das arrebatadas intimidades.
Lá pelas tantas, como os sapos tinham avisado, veio uma chuva de mansinho.
Por Luís Coronel
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